quarta-feira, 25 de outubro de 2017

FALÊNCIA JÁ!

Eduardo Simões

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__ Há uns vinte anos, num programa da Rádio Aparecida AM com a então futura secretária de educação de Aparecida, Maria Lucia Chad, apresentei meus temores quanto ao avanço da municipalização na educação, decorrente de absurda iniciativa de nossos ilustres congressistas, na atual LDB (eles tinham que estar por trás disso!), uma vez que nunca tivemos uma tradição municipalista forte, antes sempre fôramos, e ainda somos, muito dependentes do poder federal – basta perguntar a uma amostra de transeuntes quantos sabem o nome do Presidente da República e quantos sabem o do seu prefeito.
__ Meus temores se fizeram amplamente realidade, e ainda ontem escutei num jornal televisivo que um estudo da BBC inglesa constatou que a corrupção estava prejudicando fortemente o desempenho educacional do país, e que numa amostra de municípios cerca de 33% apresentavam indícios de desvio de verbas. Querem apostar como eles são, em sua maioria, os mais pobres, os que mais necessitam de redenção pela educação? As disparidades regionais, e até locais, deverão disparar... ainda mais. Compare-se isso à sabedoria finlandesa de iniciar a reforma, que levou seu país ao ápice da educação e do desenvolvimento, justo pelos municípios e regiões mais pobres!  
__ Aliás, quando votaram essa lei, muitos entre “eles” justificaram que o melhor combate à corrupção seria aquele feito pelo cidadão comum, em nível municipal. Estou tentando me conter... é muito descaramento, muito mal caratismo ou completa ignorância do que ocorre nesse país, supor semelhante coisa! Denunciar um prefeito ou secretário que esteja desviando verba é comprar uma briga seríssima com alguém que, invariavelmente, é mais rico e influente que você na sua cidade, que é seu vizinho, sabe onde você mora, conhece seus hábitos e os de sua família; esse “bandido” não é nem igual a você perante a lei: ele é superior, pois goza de foro privilegiado e geralmente se defende com os melhores advogados, enquanto que você, e boa parte dos munícipes, tem que fazer uso de defensor público ou de advogados inexperientes ou recém-formados, como nossos parcos salários permitem. E quanto ao Poder Judiciário? Dá-nos este algum alento? As grotescas variações de decisões de nossa corte mais alta mostra-nos que talvez seja preferível apelar para o “cara-ou-coroa”. Nem a vantagem de um calvário breve e barato a nossa “justiça” garante.

__ A situação da nossa educação básica periclita e piora muito a cada instante em que hesitamos em tomar medidas enérgicas e continuamos a fingir que nada está acontecendo. É PRECISO REVERTER A MUNICIPALIZAÇÃO JÁ!

terça-feira, 17 de outubro de 2017

COVARDIA À BRASILEIRA

Eduardo Simões

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__ O mal está feito! Nada menos de 50 foram os mortos e feridos na tragédia de Janaúba, a maioria crianças entre 3 e 4 anos, num dos maiores ataques a escola já acontecidos na história... do mundo – em Columbine, onde dois transtornados invadiram a escola com fuzis automáticos, foram 15 mortos e 24 feridos! Isso foi inesperados e pegou-nos a todos de surpresa? A resposta é um estrondoso “NÃO”.
__ Dia após dia os canais de televisão relatam episódios de agressões covardes e sangrentas contra professores e alunos, partindo principalmente deste e de agentes estranhos ao ambiente, sem que se tome qualquer atitude ou sequer se abra um debate sobre o que fazer para melhorar a segurança ou a resposta das escolas em caso de ataques semelhantes; e não se pode sequer alegar que não houve ataques com vítimas fatais.
__ Em 2003, o estudante, Edmar Aparecido Freitas, que sofria bullying por ser obeso, invadiu a EE Coronel Benedito Ortiz, em Taiúva, São Paulo, e efetuou 14 disparos contra alunos e professores que estavam no pátio da escola, ferindo a sete ou nove deles, se matando em seguida. Uma escola pequenina, numa cidadezinha desconhecida, pouco mais de 5 mil habitantes, e um reles filho de humildes agricultores. Quem dá bolas para isso?
__ Em 2004, um jovem, com fama de introvertido e se propondo a matar uma professora de quem não gostava, invade uma escola de informática, em Remanso, na Bahia, matando uma funcionária, ferindo outras três pessoas – antes já havia morto a um vizinho adolescente, que o provocara outro dia – até ser preso. Beneficiado pelo fato de ser menor na época, 17 anos, sequer sabemos o seu nome.
__ Em abril de 2011, aconteceu aquele que era, até agora, o mais espetaculoso ataque a escola já acontecido no Brasil: o massacre de Realengo, no Rio de Janeiro, na Escola Municipal Tasso da Silveira, quando o ex-aluno, Wellington Menezes de Oliveira, um tipo muito introvertido e excessivamente ligado à Internet, invadiu a escola e começou a atirar a esmo nos alunos, até ser detido e morto por sargento de uma patrulha da PM, que providencialmente passava no local, mas que ainda assim não impediu 13 mortos e 22 feridos. Duas coisas chamaram a atenção nesse ataque a Realengo: a atitude dos professores, correndo para se salvar, deixando seus alunos sob fogo, e a espalhafatosa reunião do Governador Sérgio Cabral e do Prefeito Eduardo Paes, na quadra de esportes da escola, procurando obter visibilidade com a tragédia, afinal todas as TVs do Brasil estavam focadas na tragédia. Para Cabral a coisa toda era muito simples: o atirador não passava de “psicopata, animal”. Mais que ele?   

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Por Shana Reis/ Governo do Estado do Rio de Janeiro - O governador e o prefeito do Rio de Janeiro falam sobre a tragédia em Realengo, CC BY 3.0 br, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=14830863

__ Já que tudo não passava de psicopatia e “animalidade” do agressor, não havia, e nem há, necessidade tomar medidas de segurança para as escolas públicas, que em geral custam caro, ou pelo menos mais do que os senhores ilustres políticos brasileiros estão dispostos a pagar, afinal essas escolas só acolhem “negros” e “pobres”, e, por conseguinte, nada foi feito para evitar casos futuros, sequer preparar os professores para que, em casos semelhantes, saibam o que fazer para proteger melhor os seus alunos, parecido com os treinamentos recorrentes que fazem os professores nas escolas americanas. Será que é por que os filhos de políticos e autoridades não costumam frequentar esse “tipo” de escola.
__ Para que ninguém fique duvidando se realmente alguma coisa mudou nesses 14 anos, quando o Ministro da Educação Mendonça Filho (no alto) esteve em Janaúba, após a chacina, disse que “o modo como aconteceu foi uma situação que mesmo se tendo o melhor, em termos de segurança, não é fácil prever”. Falou quase tudo para não dizer nada. Ou seja, foi mais uma fatalidade, ou como já vi alguns diretores dizer, quando questionados sobre alguma violência em sua escola ao longo desses anos: “foi um fato isolado”. É claro que o senhor Ministro está poupando o prefeito da cidade, Carlos Isaildon Mendes, que já afirmara ser a tragédia “imprevisível”, da enorme responsabilidade de deixar funcionar uma pré-escola em um prédio sem o alvará dos bombeiros, e sem um único... “extintor de incêndio”, afinal ele é membro do dileto partido aliado ao do Ministro, o PSDB - Mendonça é do DEM. Se alguém duvida que a escola ficará mais perigosa com a municipalização, depois de Realengo e Janaúba é melhor “por as barbas de molho”.
__ Por falar em município e na Prefeitura de Janaúba, corre na justiça um processo interminável contra um dos mais longevos prefeitos da cidade Ivonei Abade Brito, também do PSDB, acusado de fraudar concorrência, falsificar documentos e comandar uma quadrilha para grilagem de terras públicas. Por falar em Ivonei Abade, foi justamente no último ano de mandato deste prefeito, que o assassino das crianças começou a trabalhar na creche. Que ironia que o partido tão vinculado à destruição das escolas paulistas e brasileiras, por meio da imitação de modelos alienígenas mal costurados e de uma política obsessiva de “enxugamento de gastos”, esteja tão ligado a esse que é, até hoje, a maior, mais cruel e mais covarde chacina da educação brasileira!
__ Que fazer se estou inquieto e só? No início do ano que vem, por conta da municipalização, do enxugamento e do novo Ensino Médio, engendrado em São Paulo do PSDB, duas comunidades juvenis grandes, poderosas e mutuamente hostis de minha cidade, deverão ser reunidas, à força, numa única unidade escolar, antiga e imprópria para este uso, fazendo-nos temer mais um ou vários episódios horrorosos, entre os muitos que ocorrem diariamente nas nossas escolas, cuidadosamente varridos para debaixo do tapete, sob a etiqueta de “fato isolado”.

__ Quem valerá as nossas crianças e os nossos jovens?   

domingo, 1 de outubro de 2017

ADAM SMITH – LINHA DO TEMPO

Eduardo Simões

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Alunas da Kirkclady High School, a escola de Adam Smith, visitando a Escola de Enfermagem e Ciências da Saúde da Universidade de Dundee. Na época de Smith não havia esse tipo de frequência na escola...  

1729-1737: Smith entra para a Burgh School of Kirkcaldy, atual Kirkcaldy High School, uma das escolas mais prestigiosas da época, dirigida pelo professor David Miller, muito conceituado na Escócia e alhures.  Diz o biógrafo francês Albert Delatour, Adam Smith, sa vie, ses travaux et doctrine, sobre esse período:
Desde essa época ele se fez notar por sua memória prodigiosa, servida por uma autêntica paixão pela leitura, que o fazia consagrar desde já aos estudos os seus períodos de recreação, sem nunca se misturar aos seus colegas [sintoma de certa sociopatia, por razões óbvias, se considerarmos o seu histórico anterior e exclusivo de “filhinho da mamãe”]; por outro lado, a sua compleição delicada afastou-o dos exercícios violentos e o colocou numa situação de inferioridade permanente aos olhos de seus colegas. Ele passava o tempo a ler, observar e refletir. Também adquiriu o hábito muito acintoso de falar sozinho, e de ficar distraído, mesmo quando acompanhado, singularidades que só se agravaram com o passar dos anos, e que davam um aspecto por vezes bizarro à sua fisionomia. E, no entanto, seus companheiros “pegavam pouco no seu pé” [bullying], uma vez que ele se mostrava sempre bom, generoso e prestativo, de sorte que seus colegas lhe queriam bem e poupavam-no de suas brincadeiras e sarcasmos, próprios desse período e à rude disciplina das escolas da época” (tradução livre).
Dessa excentricidade de Smith sobraram alguns relatos simplesmente memoráveis, descritos por R. L. Heibroner, Introdução à história das ideias econômicas. Um vez, já famoso, seguia na companhia de um amigo, em uma franca conversação quando uma sentinela de um prédio público, em frente, desceu uma escadaria, o cumprimentou e deu meia volta; para surpresa do interlocutor Smith seguiu o soldado marchando logo atrás, ao chegar no cimo da escadaria brandiu a bengala como se fosse uma espada, desceu a escadaria e retomou a conversa de onde havia parado; suas roupas eram despropositadamente coloridas.
Na Wikipedia, em inglês, lê-se: “Era acometido de feitiços ocasionais e doenças imaginárias. Guardavas seus livros e papeis em altas pilhas no seu escritório [ao invés de usar estantes]. Conforme uma história, ele levou o importante político inglês Charles Towshend [1725-1767] a um curtume fabril, para lhe mostrar as vantagens do livre-comércio, quando no meio de uma exposição caiu dentro de um tonel de tanino [que ficava rés ao chão], sendo necessária a ajuda dos empregados para retirá-lo de lá Certa vez ele pôs, sem perceber, pão e manteiga dentro de um bule de chá, e depois disse que aquele fora o pior chá que ele já tomara. Certa vez ele saiu só de camisola de sua casa, e caminhou distraído, conversando consigo mesmo, até várias milhas fora da cidade, quando o sino de uma igreja o despertou para a realidade... [era dominado por temores fúteis], James Boswell [1740-1795], seu aluno na Universidade de Glasgow... disse que ele evitava falar de suas ideias em público com receio que diminuísse a venda de seus livros, e por isso era uma companhia muito desinteressante... Ele teria dito: “não vejo nenhuma beleza em mim, exceto em meus livros” (tradução livre). Usava roupas coloridas, bem chamativas, e recusava-se invariavelmente a posar para retratos, por isso são poucas as imagens que sobraram dele, a maioria feita de memória pelos artistas.

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...E talvez por isso ele tenha ficado esquisitão!

domingo, 24 de setembro de 2017

A DAMA DO IRAJÁ (1)

Eduardo Simões

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__ Nunca escondi a admiração que sentia pela doutora Janaína Paschoal, em todo o processo que levou ao “semi-impedimento” de Dilma Rousseff, uma jabuticaba brasileira. Sua coragem e a sua determinação eram louváveis, embora, por vezes, eu achasse que ela se excedia na exposição de seus motivos; prefiro uma abordagem mais técnica, mais serena, mas isso pode ser atribuído a uma característica de temperamento, que em nada desabona um caráter.
__ A coisa, porém, mudou, quando ela teve o desplante ou... não sei o que dizer, de escrever uma mensagem de apoio às iniciativas de um personagem claramente falto de juízo ou aloprado o suficiente, para numa sessão de uma loja maçônica, defender a possibilidade de o exército vir a tomar a iniciativa de um novo golpe a pretexto de defender a Constituição: o General Antonio Hamilton Martins Mourão. Não é difícil falar em repúdio dessa aberração, assim como não é difícil entender a posição indefensável do Ministro da Defesa, gravemente desmoralizado nesse episódio – aliás, ele já se autodesmoralizou bastante, quando recusou-se a seguir o seu partido e abandonar ao corrupto Governo Temer.
__ Para aqueles que têm memória curta ou não conhecem a história de seu país, é bom saber que os militares, em 1964, deram um golpe no presidente eleito justamente com esse pretexto: “salvar a democracia brasileira (prevista na Constituição) do avanço do comunismo totalitário, e o país do caos econômico”, e o resultado foram vinte anos, com muito menos democracia do que havia antes de 64 e um descalabro econômico como nunca antes na historia do Brasil, inclusive no episódio do famoso encilhamento: a dívida externa subiu de US$4 bilhões para US$102 bilhões; em 1983 o país estava insolvente e o FMI começou a mandar seus fiscais para monitorar o país; a inflação de 1963, a última do Governo Goulart, foi de 79,9%, mas a inflação do último ano do governo Figueiredo foi de 211%. Depois de tudo isso será que ainda há quem queira repetir essa história? Já não nos basta de tragédias?
__ Quem garante que essa desordem, essa desmoralização política, não é fruto justamente da longa permanência dos militares no poder, e o Estado artificial que criaram, e que impediu a renovação natural das forças políticas do país, de sorte que, quando houve a redemocratização, foram os velhos caciques, pré-64, já completamente desatualizados, com um discurso surrado dos anos 60, que dominaram a cena política? A destruição da família brasileira não foi também o preço que pagamos pelos militares terem proibido o debate político interno, principalmente quando explodiam os grandes escândalos, e els mandaram entupir os jovens de pornografia de baixa qualidade, nas pornochanchadas da EMBRAFILME, que lotavam a cabeça da juventude de sordidezes de toda espécie, que ajudaram a destruir os valores familiares e o respeito pelas mulheres, que tanto os militares de 64, quanto os de hoje, alegam querer proteger como justificativa para o golpe?  
__ Quem tem que defender a Constituição é o cidadão consciente, não se deixando arrastar por esse canto de sereia tão rouco, démodé e indigno de confiança, sequer de atenção, que insiste em nos fazer crer menores, incapazes, e por isso precisados de um ou vários “salvadores da pátria”, que sempre deixam a pátria pior do que encontraram, embora eles mesmo obtenham para si muitas vantagens. Igualmente responsáveis por essa democracia, de uma maneira muito especial, são aqueles cuja vocação, acreditamos, os arrastou para as lides do direito, para o território do Poder Judiciário, o último e mais insigne guardião da Constituição e da democracia, absurdamente tripudiado pela declaração infeliz de Janaína Paschoal e a loucura do General.
__ Mas, tudo bem! Se não podemos, nós os liberais, amantes da democracia e de uma ordem jurídica baseada na força do direito, e não da força bruta, militarizada, de quem não a tem, mas antes a usurpa do povo para, mais cedo ou mais tarde, apesar do discurso enganador, o canto da sereia, jogá-la contra o próprio povo, embora sem poder mais contar com a presença combativa de Janaína Paschoal, nem por isso devemos deixar de lutar com todas as nossas forças contra qualquer tentativa de esbulho do sagrado direito de qualquer cidadão de optar pelo político e pela ideologia que lhe parecer melhor, ainda que seja um erro, pelo qual todos devem pagar para podermos amadurecer, enquanto nação, e não ficarmos a pedir ajuda ou solução dos militares, que não estão preparados para isso, já o provaram sobejamente, como se fôssemos crianças, que toda vez que fazem uma “arte” acorrem para se esconder debaixo da saia ou as calças verde-oliva da “mamãe” ou do “papai”...
__ Estamos novamente, como em 64, num período de transição, de afirmação do regime democrático, uma plantinha tenra, recém-plantada no jardim de nossa evolução política visceralmente autoritária, capaz de gerar pérolas como a daquele general-presidente: “Juro que hei de fazer desse país uma democracia; e quem disser o contrário eu prendo e arrebento”, e é normal que ocorram esses percalços, precisamos ter paciência e agir com firmeza sempre que quiserem, seja quem for, atropelar a marcha das instituições legais, que já avançaram como nunca na nossa história no combate à corrupção, sob pena de termos que abdicar de vez da esperança de um dia formarmos uma nação digna de respeito...

(1) Para as gerações atuais, houve na época da ditadura uma peça teatral humorística chamada “Greta Garbo, quem diria, acabou no Irajá”, que conta a história de um travesti sonhador, que viva com a cabeça na Broadway, tanto é que escolheu o nome de uma das maiores atrizes do cinema para ser seu “nome de guerra”, sonhado com altos espetáculos e muito sucesso, desligada da realidade, até que um dia deu por si, estava madura e decadente, protagonizando espetáculos mambembes, num dos subúrbios mais pobres do Rio de Janeiro. É onde a maioria pessoas, em geral, sepulta seus mais belos sonhos de adolescência... O termo “Irajá”, tirante o bairro de verdade, que tem gente muito boa, acabou com o significado de “fracasso repentino, virada surpreendente, de alguém de quem se espera muito”...


sábado, 23 de setembro de 2017

O SÉCULO DE ADAM SMITH (1723-1790)

Eduardo Simões

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By Johann Zoffany - hAG9DaPJM3FApw at Google Cultural Institute maximum zoom level, Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=22126801
A sofisticação, o desejo de mais conhecimento e cultura, os bons modos, a afetação, o progresso da ciência e da tecnologia, tudo isso “explode” no século XVIII

__ Que século! O século XVIII! Ele foi para a construção do mundo moderno o que o século XX o foi para a sua destruição. Nesse mundo de descobertas e invenções impactantes, o mundo natural e a própria sociedade humana, naquilo que ela tem de mais específico ou de mais humanístico, sofreram transformações significativas. A burguesia, enfim, toma o poder, e com a humildade de um novo rico que não sabe ainda como lidar com a realidade em que se assenhorou, busca nas classes depostas: o clero e a nobreza, alguns modelos para temperar as mudanças que virão. É ainda uma fase de transição, que acabará nas tragédias da segunda metade do século XIX e XX, auge da autossuficiência burguesa. Mas deixemos esta etapa para lá, e nos concentremos nesse período áureo onde nasceu e prosperou Adam Smith. Assim descreve o panorama intelectual da Europa Ocidental, quando do nascimento de Smith, um de seus mais renomados biógrafos: Ian Simpson Ross, em seu livro The Life of Adam Smith, começando pelos escoceses:
Thomas Reid, o filósofo que tentará se contrapor ao ceticismo de Hume, nascido em 1710, estudava no Mariscal College, de Aberdeen. Outro notável literato era o crítico Hugh Blair (nascido em 1718); William Robertson, historiador, nascido em 1720; Adam Ferguson, pioneiro da sociologia, nascido em 1724; James Hutton, geólogo, nascido em 1726; Robert Adam, arquiteto, Joseph Black, químico, e John Hunter, anatomista, todos nascidos em 1728 [e todos escoceses].
Fora da Escócia, Newton estava se aproximando do fim da sua vida, morrendo em 1727. Swift se tornava o poeta Nacional da Irlanda, em 1724... atacando o controle político e econômico dos ingleses em sua pátria. [Alexandre] Pope, em 1723,... traduzia Homero e editava Shakespeare. Neste ano Samuel Johnson [um dos mais afamados críticos literários ingleses da história, nascido em 1709] estudava na Lichfield Grammar Scholl, enquanto [George] Berkeley [filósofo idealista irlandês] e [Francis] Hutcheson [filósofo escoto-irlandês] estavam ambos ensinando em Dublin... Hutcheson estava trabalhando no seu livro “Investigação sobre a origem de nossas ideias de beleza e virtude”, editado em 1725, que tanto influenciou a Smith e Hume. O politicólogo anglo-irlandês [Edmund] Burke, que se tornará amigo de Smith, nascia em Dublin, em 1729. No continente [o filósofo] Leibniz morria, em 1716, e Kant nascia, em 1724. [Christian] Tomasius [grande jurista alemão] aproximava-se do fim de sua carreira em Halle, 1723, de onde [Christian von] Wolff [filósofo] era expulso, indo lecionar em Marburg. Voltaire publicava em 1723 seu poema épico “A Henriada”... e Rousseau ainda trabalhava como gravador em Genebra. Sem ser ainda economista, [François] Quesnay recebia, neste ano, o título de Cirurgião-Real... Os futuros filósofos, Diderot, nascido em 1713, e D’Alembert, nascido em 1717, eram ainda escolares. O Barão D’Holbach [filósofo franco-alemão], nasceu no mesmo ano de Smith, e o economista Turgot, quatro anos depois. [Johann Sebastian] Bach se tornou cantor da Thomarskirche, em Leipzig, e compunha a “A Paixão segundo São João”, em 1723, enquanto [George] Handel [compositor alemão] encerrava uma temporada em Halle e começava a compor óperas italianas em Londres. Nas colônias britânicas da América o jovem de 17 anos Benjamin Franklin ia de Boston para Philadelphia, para oferecer seu trabalho como impressor, o pai de George Washington administrava uma grande propriedade no condado de Westmoreland, Virginia, onde George nasceria, em 1732, enquanto o pai de Thomas Jefferson se preparava para ser agrimensor... e ir morar no condado de Goochland, também na Virginia, onde aquele nasceria em 1743.
__ No Brasil, também vivemos um importante momento artístico e cultural, pouco sinalizado em nossos pobres manuais escolares de História do Brasil, com as obras do fluminense Antônio José da Silva, o Judeu, nascido em 1705, e nas obras do mineiro Aleijadinho, nascido em 1730, e toda a espetaculosidade do auge do Barroco Mineiro. Por essa época, 1723, em Portugal, Sebastião José de Carvalho e Melo, o futuro Marquês de Pombal, alinhavava um casamento de conveniência, única maneira de ele adentrar à alta nobreza, algo absolutamente indispensável para quem queria fazer carreira política nas altas esferas, e assim por diante...

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Só não avisaram aos pobres...

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

ADAM SMITH – LINHA DO TEMPO

Eduardo Simões

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By attr. Conrad Metz (1749-1827) - Kirkcaldy Art Gallery exhibit, Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=27606102
Tal mãe...

1726-1733 – A meninice de Adam Smith foi marcada tanto pela onipresença da mãe como por sua fragilidade física, que o mantinha afastado dos esportes e atividades violentas, muito apreciadas na época para “temperar” o espírito dos rapazes. Aliás, entre ele e a mãe desenvolveu-se, nesse período e pelo resto da vida, uma relação que alguns chamariam de “simbiótica” (de “simbiose”, caso em que se manifesta uma dependência psicológica recíproca entre mãe e filho, com variável grau de patologia). Assim descreve essa relação um biógrafo renomado de Adam Smith, John Rae (1845-1915), em seu livro Life of Adam Smith.
A mãe ocupava a totalidade do coração de Adam Smith. Ele era o seu único filho e ela, para ele, o seu único parente, tornando-se assim, cada um, tudo para o outro, desde a sua infância e adolescência, e mesmo em seus anos de reconhecimento e triunfo, quando a presença dela se fazia sentir idêntica à dos primeiros anos. Seus amigos frequentemente falavam da afeição e do carinho [em inglês “worship” = adoração] que ele devotava a mãe. Alguém que o conheceu bem os últimos trinta anos de sua vida, [de Smith]... disse que o seu coração era como uma via de mão única, direto à sua mãe”(tradução livre).
Por isso, talvez, Smith nunca se casou e nunca morou muito tempo longe de sua mãe; mas como Freud e a psicanálise não tinham ainda sido inventados, ele pode fazer um belo trabalho e levar uma vida produtiva e enriquecedora para a cultura universal...

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/4/43/Adam_Smith_The_Muir_portrait.jpg
By Unknown - http://www.nationalgalleries.org/object/PG 1472, Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=20413810

Tal filho.  
O CORAÇÃO DAS TREVAS

Eduardo Simões

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Esperem só o que está chegando...

__ Uma aluna adolescente, um tanto nervosa e um pouco mais pobre, começa a sofrer um intenso bullying de um grupo de colegas, garotos, de sua turma, após ter caído na asneira de uma ação violenta e impensada.
__ Chega à direção a notícia de que a aluna está sofrendo muito com o “cerco” desses colegas, a ponto de, inclusive, começar a tomar remédios que a ajudem a libertar-se de sua tribulação. Existe algo mais arrasador para uma personalidade infanto-juvenil que a sensação de não ser aceita por seu grupo de amigos, pelos de sua geração? – alguém, por favor, clame isso aos ouvidos de pais, professores e dos burocratas da educação!
__ A direção não hesita, e com cautela manda chamar os responsáveis pela “guerrilha”, os faz tomar consciência da situação da colega e pede-lhes compreensão. Apela para o seu espírito de turma e coleguismo, que, pelo nível da turma – Ensino Médio – já deveria estar bastante estimulado, sem falar dos apelos à discrição. Mas que nada! Ao voltarem para a sala de aula, a primeira coisa que fazem é dizer em alto e bom som, e alguns risos: “a fulana está ficando doida!” O mundo prostra, a escola esfola....
__ É verdade que a vida familiar de muitos jovens adolescentes não é fácil, em virtude da ligeireza com que pais e mães se desfazem de projetos e promessas recíprocas, se é que não tiveram a criança antes mesmo de fazerem qualquer promessa, e sem a menor ideia do que fazer com aquele “presente” inesperado. Mesmo famílias estáveis, muitas delas, demonstram não saber o que fazer com a educação de seus rebentos. A crise da família brasileira anda estreitamente de mãos dadas com a crise do sistema escolar e da educação em geral.
__ Que fazer quando uma adolescente, nessa fase tão sensível, intensa e dramática da vida, descobre que não há o que esperar muito de sua família, ou o que sobrou dela, e começa a se sentir rejeitada por sua última instância de autoestima e respeito, sua última tábua de salvação: o seu grupo de amigos na escola? Porque os jovens não têm encontram aa escola um lenitivo em a um mundo adulto repleto de decepções e desenganos? Por que as escolas brasileiras fracassam tão grosseiramente em serem comunidades infanto-juvenis? A resposta é simples: não foi para isso, para ser uma “comunidade infanto-juvenil”, que os nossos “caros” políticos reformaram o sistema escolar público e privado em São Paulo e no Brasil, e o deformam ainda mais, quase diariamente, com novas e desastradas iniciativas.
__ De olho em exames internacionais, que dão visibilidade carreiam investimentos, inclusive internacionais, no curto prazo, nossa “autoridades” pegaram um atalho e resolveram que a única vocação possível para as crianças brasileiras é se tornarem especialistas em provas e múltipla de escolha, tipo PISA, SARESP, AAP, etc., algo que demanda treinamento repetitivo, mas requer pouco uso das habilidades humanizadoras dos alunos. O seu futuro já está determinado: tornar-se um trabalhador compulsivo, gerar muito retorno para a empresa aonde for trabalhar, mesmo fracassando na sua afetividade e na sua socialização, exceto aquela estritamente necessária para ele/ela não tornar-se insuportável aos seus colegas de trabalho, dando muito lucro às empresas e pouca despesa ao estado. Enfim, um trabalhador acrítico, sem emoção, sem afetividade; uma máquina de trabalhar ou uma versão bimilenarista do escravo do primeiro milênio. Disso nós bem entendemos, não é mesmo?
__ Mas não é assim que um ser humano, muito menos um adolescente, funciona; não dá para revogar a afetividade, os sentimento, valores, desejos, etc., tudo enfim que faz a vida valer a pena, e que só os adultos infantilizados ou especialistas em educação parecem ignorar, e por causa disso minha aluna está sofrendo muito e desnecessariamente, pelas iniciativas daqueles que deveriam ser seus companheiros de caminhada e parceiros de descobertas na aventura da vida. Mas que escola é esta que estamos a propiciar às nossas crianças!
__ A escola está doente, a escola brasileira e paulista atual é um ambiente empesteado de rancores, frustrações e traumas mal resolvidos, um meio que vitimiza nossas crianças e jovens pela sua insensibilidade, pela sua paranoia pelo enxugamento de custos, pelo sentimento de inferioridade reinante, que faz nossas autoridades copiar acriticamente modelos de escolas colhidos alhures. Nossas escolas estão se tornando caricaturas grotescas das escolas americanas que a cada momento revelam o seu fracasso, visível tanto nos resultados do PISA, que essas “autoridades” tanto prezam, quanto no seu ideal de formar um cidadão democrático e consciente. De que adianta ficar numa escola de tempo integral, cercado por tanta tecnologia, para votar num espalhafato como Donald Trump? Acreditar que é o maior e o melhor e ter sua política externa dirigida pelo pequeno Israel ou limitando-se a reagir às provocações da minúscula Coreia do Norte? Os inimigos da América devem estar agora se contorcendo de alegria...
__ A solução, segundo nossas autoridades, já está a caminho: a municipalização, um remendo aposto à educação, ante a indiferença de pais e professores, para escamotear o descalabro em que se tornou o atual pacto federativo, que exige, para o seu correto equacionamento, medidas corajosas, ousadas e, ai de nós, acima de tudo... honestas. Seguimos sonhando. Com a municipalização tudo mudará, e a politicagem, tanto de direita como de esquerda, que vem exilando a pedagogia e a psicologia das escolas, só aprofundarão o drama atual.
__ Uma professora me contou, desconsolada, como um secretário de educação de um município a obrigou a promover um aluno, que, na visão dela, não tinha a menor condição de ser promovido, em virtude da influência política da família, um vício típico de escolas privadas da pior qualidade, só que por motivos diversos, e que promete se disseminar por todo o sistema de ensino público fundamental, de tal sorte que no futuro não serão os pais que invadirão as escolas pedindo explicações, satisfações, orientações de como lidar com seus meninos, e sim vereadores, prefeitos, secretários, líderes comunitários, que nem conhecem a criança referida, mas sequiosos de acrescentar feitos ao seu portfólio, que adentrarão a exigir reparações desmoralizantes aos professores e outros profissionais de educação, se não vierem já acompanhados da imprensa... A possibilidade de o professor sofrer uma grave retaliação, por alguma atitude que desagrade a essa gente será quase ilimitada.

__ O horror! O horror!